Pesquisa derruba mito de que o andador faz mal aos bebês

Muito usado na década de 1980, o andador foi condenado pela maioria dos pediatras sob a acusação de que o aparelho poderia provocar uma dissociação entre o equilíbrio e a marcha, retardando o desenvolvimento da coordenação motora das crianças. Mas uma pesquisa de doutorado realizada pela fisioterapeuta Paula Silva de Carvalho Chagas, na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), mostra que o andador não traz prejuízos nem benefícios para o bebê.
Durante nove meses, ela acompanhou o desenvolvimento de 40 bebês entre 8 e 9 meses de vida, divididos em dois grupos: os que usavam o andador e os que não usavam. Segundo a pesquisadora, a decisão de usar ou não o aparelho foi tomada pelas famílias antes de a pesquisa ser iniciada.
Os pais que adotaram o andador receberam um diário onde marcavam o desenvolvimento do bebê no aparelho. Até as crianças aprenderem a andar, Paula Chagas fez um primeiro teste de acompanhamento semanal dos bebês por telefone. “Quando elas começaram a andar sozinhas, passamos a fazer uma avaliação mensal no laboratório de marcha durante seis meses para avaliar nos aparelhos a forma de andar da criança e, principalmente, os ângulos de suas articulações durante o movimento. Para essa análise, foram colocados, na região do quadril até o pé, 21 marcadores que digitalizavam o caminhar do bebê”, explica.
O segundo teste foi feito em uma rampa, que tinha sua inclinação modificada para avaliar a capacidade da criança de lidar com os desafios do meio. “Iniciei a pesquisa com três perguntas: se o uso do andador alterava ou não a forma de a criança andar, se ele modificava a maneira de a criança perceber e lidar com o ambiente e por que os pais optavam ou não pelo andador. Em relação às duas primeiras questões, não houve nenhuma diferença entre os dois grupos e todos os bebês apresentaram desenvolvimento normal, aprendendo os movimentos corretamente e no tempo adequado”, diz ela.
A pesquisadora alerta para dois aspectos importantes do estudo. O primeiro diz respeito à classe social. “Quase 90% das famílias eram de classe média e alta. Não posso dizer como é comportamento em classes baixas. Outro ponto importante é que os pais optaram pelo andador receberam orientações de segurança, por isso não registramos nenhum acidente grave”, diz.
A esse respeito, Paula Chagas afirma que é injusto colocar a culpa no aparelho. “Os acidentes acontecem por negligência dos pais e não por causa do andar. Uma criança nessa idade não tem noção do perigo. Mesmo estando no andador, requer a supervisão de um adulto”, aconselha. Agora, a pesquisadora pensa em continuar o estudo, investigando os efeitos do uso do andador em crianças prematuras e com alterações neurológicas.



Na prática

Pais têm experiências diferentes

Depois que o andador passou a ser desaconselhado pelos pediatras, muitos pais abriram mão do equipamento para preservar a saúde dos filhos. Hericka Parreiras de Araujo é mãe de três meninas: Bárbara, 8, Marcela, 2, e Isadora, 1. Ela conta que a primeira filha chegou a ganhar um andador de presente, mas depois dos conselhos da pediatra, ela preferiu não usar.
“Acabei trocando por uma cadeira de refeição. Nenhuma das três usou justamente porque a pediatra não recomendava. Na época ela não falou que o andador podia deixar o pezinho e as perninhas tortas”, conta.
Mas, se a pediatra não tivesse desaconselhado, ela usaria? “Se não houvesse contraindicação eu acho que usaria como um brinquedo para as meninas. Mas eu acho que dá para ficar sem, com certeza”.
Há quem tenha optado pelo andador a despeito da opinião do pediatra. Maria Regina Parrela, 36, diz que seu filho, Alexandre, hoje com 2 anos e meio, usou o andador durante quase cinco meses. “A pediatra me disse que não era bom.Como ele tinha ganhado da avó, decidi usar. Mas nunca deixei por muito tempo, no máximo, uma hora por dia”, conta professora universitária. Segundo ela, Alexandre andou com um ano e dois meses e não teve nenhum comprometimento no desenvolvimento. “Não afetou em nada”.
A presidente do Comitê de Neuropediatria da Sociedade Mineira de Pediatria, Marli Marra, Acredita que a pesquisa feita na Universidade Federal de Juiz de Fora é importante para batizar novos trabalhos. “O que achei mais interessante foi a contratação de que o brinquedo não prejudica a parte motora. É o primeiro trabalho feito com mais cuidado”, diz.
Contudo, Marli Marra, afirma que é importante para o desenvolvimento neurológico do bebê rolar, engatinhar, colocar-se de com apoio para depois começar a andar. “Os pais acham que vão estimular a parte motora, o que não é verdade. Não adianta querer adiantar o desenvolvimento da criança”, alerta.


Resultado

“O que causa o acidente não é o equipamento”


Marisa Cotta Mancini, orientadora da pesquisa Efeitos do Uso do Andador Infantil na Aquisição da Marcha, a primeira do gênero no país diz que existem poucos estudos sobre o assunto e todos eles avaliam as crianças depois que elas já andavam. “Formou-se um pressuposto clinico de que o andador causa alterações negativas, mas isso nunca foi testado de forma empírica”, diz.
Segundo ela, a Associação Norte-Americana de Pediatria desaconselhou o uso com argumento de que o andador causava traumatismo cranioencefálico. “Mas o que causa o acidente não é o equipamento, mas a negligencia dos pais”. Diz. A fisioterapeuta acredita que as orientações dadas a pais e mães são formadas por uma série de convicções pessoais. “A pesquisa é longitudinal e comprovou o contrário do senso comum. O resultado pode ajudar a pautar as orientações”. (ACB)
O Tempo - 2010-06-24