Homens seduzidos pela plástica

Em 2009, das 645,4 mil cirurgias estéticas realizadas no Brasil, 119,2 mil foram em pessoas do sexo masculino

Incomodado com a pele flácida das pálpebras, o empresário Franklin Bethônico, 52 anos, há dois anos resolveu fazer uma cirurgia plástica, a chamada blefaroplastia, para corrigir o problema. “Estava dando umas bolsinhas, meu rosto estava ficando inchado. Depois da correção, fiquei outro Franklin”, comemora. O empresário faz parte do universo de homens que deixaram o preconceito de lado e optaram por fazer intervenções cirúrgicas estéticas. Para se ter uma idéia, enquanto 5% dos 100 mil procedimentos cirúrgicos estéticos realizados em 1994 foram em homens, no ano passado este percentual saltou para 18%, de acordo com pesquisa do Ibope.
Em 2009, das 645,4 mil cirurgias plásticas realizadas no país, 119,2 mil foram em homens. “Eles buscam acompanhar a vaidade feminina e, hoje, a valorização da estética está muito presente na televisão”, ressalta o cirurgião plástico Frederico Vasconcelos. O especialista foi um dos que registraram aumento de homens no consultório.
Mesmo ser ter números absolutos em mãos, o médico estima que, em 2009, comparado ao ano anterior, atendeu 20% a mais de clientes do sexo masculino. “Eles vão acompanhados da esposa. Ela se decide por uma cirurgia, ele por outra. Acabou o preconceito de que o homem não podia cuidar da estética”, analisa.
Que o diga o estudante de Farmácia Cristian Pádua, 29 anos. Há cinco anos ele foi submetido a uma rinoplastia (cirurgia do nariz) e também tirou o excesso e gordura nas coxas. Na época. O jovem não tinha como negar a rinoplastia, por ser bastante visível. Porém, em relação à lipoaspiração nas pernas, chegou a dizer para os conhecidos que tinha feito uma cirurgia no joelho. “Não tinha coragem de falar a verdade. Fiquei com vergonha. Já o nariz não tinha como esconder”, recorda ele.
Cinco anos depois, o universitário fala sobre o assunto abertamente e sem medo de preconceitos, “Homem tem que cuidar da beleza física sim. Esse privilégio não é somente para as mulheres”, afirma Cristian. “Os homens estão assumindo este lado vaidoso”, comenta Frederico Vasconcelos.
A tendência, de acordo com presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), Sebstião Nelson Edy Guerra, é decorrente do crescimento da cirurgia plástica no Brasil. Enquanto em 2004 foram 616.287 procedimentos, no ano passado foram pouco mais de 645 mil. “O público masculino tem procurado muito os consultórios, um aumento de cerca de 30%, relacionando os últimos 16 anos. Agora, estamos fazendo um novo levantamento para sabermos os números reais da cirurgia plástica no Brasil e o perfil deste público”, adianta o médico.



Nariz, lipo e pálpebras são os mais procurados

As intervenções mais procuradas não diferem muito pelas quais passam as mulheres. Ainda de acordo com o levantamento do Ibope, o procedimento mais realizado em homens, no período de 2009, foi a cirurgia das pálpebras com 19 mil cirurgias, seguida do nariz, com quase 16 mil, e lipoaspiração, com pouco mais de 15 mil.
Geralmente, os serviços são procurados por homens entre 18 e 40 anos. “Os mais velhos recorrem insatisfeitos com a bolsa de gordura na região das pálpebras inferiores. Isto reproduz um ar muito abatido e uma aparência pesada podendo, inclusive, causar alterações visuais”, ressalta o cirurgião plástico Alan Landecker, enfatizando que no ano passado, atendeu 105 pacientes homens, 25 a mais que no ano anterior – um aumento de cerca de 30%.
O especialista reforça a tese de que o aumento acontece em virtude da quebra de paradigmas quanto aos cuidados masculinos com a beleza, e ainda diz que a popularização da especialidade a tornou acessível a toda a população. “Hoje, uma cirurgia pode ser financiada”, argumenta.
Os custos da intervenção também não se diferem dos praticados nos procedimentos em mulheres, eles dependem da complexidade da cirurgia. “No entanto, antes de qualquer cirurgia plástica, o paciente deve pesquisar, saber se o médico é especialista cadastrado na Sociedade Brasileira e pegar recomendações”, orienta Alan.
No caso dos homens, o cirurgião plástico considera que os procedimentos devem ser mais conservadores e as feições masculinas precisam ser preservadas. “Deve-se evitar sinais de feminilização como, por exemplo, deixar o nariz muito fino e pequeno. Hoje nem é tão preocupante, pois a técnica está bastante aprimorada, a tecnologia está avançada”, pondera.
Alan ressalta ainda que a cirurgia plástica em homens tende a ser mais complexa tecnicamente, em função de características do organismo masculino.
No caso deles há mais chances de ocorrer sangramento e inchaços. Por causa do inchaço mais intenso, a recuperação é um pouco mais demorada. “Não tive problemas nenhum com a cirurgia. Por enquanto não penso em fazer uma outra. Mas quem sabe pra frente”, revela Franklin Bethônico.


Hoje em Dia - 2010-07-03